Ângela Nunes

“Nunca mais voltei, mas perdi o meu bebé e nunca me esquecerei disso. Uma vez mais o corpo agia por mim, numa tentativa de me mostrar o caminho. E mostrou. Segui a minha viagem e fui ser feliz noutros lugares.”
Ângela Nunes

Quem é a Ângela?

Sou uma miúda mulher e cresci a amar o movimento. Desde pequena que sonhava em ser professora de Educação Física. Só ainda não sabia explicar que o que eu queria, era ensinar o movimento através das palavras. Tornei-me então professora de Educação Física e com o passar dos anos encontrei no Pilates e no Yoga novas formas de me expressar, de me reinventar, de me conhecer melhor.

Tenho 36 anos, dois filhos meninos, sou casada com o homem da minha vida. Acredito no amor à primeira vista. Acredito no amor próprio, acredito no amor. Esta sou eu. Gosto de palavras e de abraços. Gosto muito de sorrir e também sou boa a explodir. Aprendo todos os dias a sorrir mais e a explodir menos. Sou feita de emoções fortes, de convicções profundas e de dúvidas superficiais. Adoro árvores, verde, nuvens e cinzento. Ler e escrever, escrever e ler. Tenho duas palavras preferidas: agora e quietude. Quietude, agora.

Em criança, quais eram os teus sonhos para a vida adulta?

Sonhava em ser jornalista, professora de Português, professora de Educação Física e futebolista. Adorava ser livre.

Neste momento és professora de Yoga e Pilates, mas para que te possamos conhecer melhor fala-nos um pouco do teu percurso até chegares aqui.

Em 2003 entrei em Educação Física como sempre desejei. Em 2007 comecei a trabalhar num ginásio ainda antes de terminar o curso. Cresci na empresa à medida que fui fazendo o curso superior. Acabei o curso e comecei a sentir que o meu lugar não era ali. Paralelamente a esse sentimento, tirei a formação em Pilates em 2007 e durante muitos anos, lecionava Educação Física, dava aulas de Pilates e fazia toda a gestão do ginásio. Tentei fazer um mestrado ao mesmo tempo, e a partir daí entrei num universo menos bom. Trabalhava durante horas e horas e deixei de estar apaixonada pelo que fazia e sobretudo por mim mesma. Pessoalmente, sentia que não era amada como eu amava, não me sentia feliz. Desenvolvi um problema de pele, um eczema que tomou conta de grande parte do meu corpo. Durante meses tentei tratamentos que não resultavam e mais tarde, descobri na psicoterapia a minha quase cura. Digo isto porque a cura começa em nós, bem cá dentro, em primeiro lugar. Renasci aí, uma primeira vez. Perceber que questões emocionais se haviam revelado no meu corpo físico, mudou toda a minha perspetiva de vida.

Comecei a praticar Yoga e apaixonei-me ainda mais pelo movimento. Em 2011 entrei para a minha formação em Yoga. Em 2013 engravidei sem querer e voltei a renascer. Soube que era um ponto de viragem, mas não sabia até onde isso me levaria. Foram meses de muitas certezas e de muitos questionamentos. Quando voltei ao trabalho, após todo o período de licença de maternidade, fui confrontada com um novo mundo. Eu já não era a mesma e a empresa também não. Percebi no dia em que voltei ao trabalho que não fazia sentido estar ali. Aquele já não era o meu lugar. Coloquei a hipótese de engravidar de novo, numa tentativa um bocadinho inconsciente de “fugir” de um lugar onde eu já não queria estar mas que não tinha coragem para deixar. A verdade é que engravidei naquele primeiro mês de regresso ao trabalho pós licença de maternidade. Esse regresso ao trabalho foi muito difícil para mim, não estava preparada para deixar o meu bebé e bem cá dentro sabia que não queria voltar. Foram semanas de muito nervosismo e stress e ainda sem saber que já estava grávida, acordei numa sexta-feira a meio da noite com dores fortes e incapacitantes no baixo ventre e a perder muito sangue. Não percebi logo que estava a abortar. Liguei para a saude 24 e só aí me foi dito o que poderia estar a acontecer, tendo em conta o que descrevi à enfermeira via telefone. Eu não queria acreditar. Chorei muito. Contorci-me. Muito.

Antes de sair de casa a caminho do hospital, percebendo já o que poderia estar a acontecer, disse ao meu marido que não voltaria aquele trabalho.

Nunca mais voltei, mas perdi o meu bebé e nunca me esquecerei disso. Uma vez mais o corpo agia por mim, numa tentativa de me mostrar o caminho. E mostrou. Da pior forma possível, mas mostrou. Durante muito tempo senti-me culpada pelo que aconteceu. Senti-me responsável por ter perdido o meu filho que ainda não sabia sequer que já existia. Segui a minha viagem, deixei o ginásio e fui ser feliz noutros lugares. Comecei a dar aulas em ginásios, de Yoga e Pilates, com menos estabilidade financeira mas com mais amor.

Quando tudo estava bem como tinha de estar e já depois do nascimento do meu segundo filho, o meu marido foi trabalhar para fora. Vivi um ano sozinha com os meus dois filhos, numa espécie de bolha entre a saudade e o cansaço, o amor e a raiva. Peguei nas malas e juntámo-nos ao meu marido em Inglaterra. Deixei de dar aulas presenciais. Comecei a dar aulas online e é isso que faço hoje.

A perda que sofreste foi impulsionadora da decisão de abandonares o emprego que tinhas na altura. O que consideras que te prendeu, talvez ainda durante algum tempo, a esse emprego que já não te fazia sentido e até te estava a fazer mal física e psicologicamente?

Prendia-me a estabilidade financeira sobretudo. Eu adorava o trabalho que fazia, adorava as pessoas com quem trabalhava e as pessoas que me rodeavam, mas comecei a sentir-me muito cansada porque trabalhava imensas horas e tinhas muitas responsabilidades. Mas financeiramente estava presa aquele número e ao que isso representava.

Em termos familiares, quando tomaste a decisão de não voltar aquele trabalho, sentiste que alguém te tentou fazer ver as coisas de outra forma e/ou mudar de ideias, pela estabilidade que aquele emprego representava ou por qualquer outro motivo?

Não. O meu marido, quando saí de casa nesse dia, durante a noite e antes de fechar a porta disse-lhe que se estivesse a abortar nunca mais voltaria lá, só me respondeu “e não voltas mesmo”. Ele ficou com o meu filho mais velho, com 6 meses e eu segui para o hospital com a minha irmã, literalmente lavada em lágrimas e em sangue.

Qual o maior desafio que tens sentido desde que começaste a trabalhar de forma mais autónoma?

Essa instabilidade financeira. Mas ganhei uma relação mais saudável com o dinheiro, consumo de forma mais consciente e mais alinhada com o que realmente preciso.

Neste momento vives em Inglaterra e dás exclusivamente aulas online. Sentes falta de ter as pessoas perto de ti durante a pratica?

Neste momento estou em Portugal, regressei há 2 meses, por cauda do vírus. Quando vivia em Inglaterra, sentia essa falta sim. Mas o que fiz foi planear eventos, então sempre que vinha a Portugal, nas férias escolares dos miúdos, dava workshops e aulas presenciais. É o que pretendo continuar a fazer! Manter o online, porque é a minha base e poderei fazê-lo a partir de qualquer lado do mundo, e o presencial, sempre que regressar a Portugal.

Hoje em dia sentes equilíbrio e felicidade no que fazes, ou sentes que nos próximos tempos terás que alterar algo que vais sentindo não estar bem ou completo?

Sinto total equilíbrio e felicidade. Nasci para fazer o que faço. Não tenho dúvida de que o meu caminho é este, partilhar experiências, sensações, pensamentos e orientar as pessoas na sua prática física: seja no Yoga, no Pilates ou na Educação Física.

Que competência ou aprendizagem gostarias de juntar à tua caixa de ferramentas?

Neste momento estou a fazer formações em áreas como o sagrado feminino, a meditação e Vedanta. São áreas que quero explorar mais, porque sempre fui muito yang e faz-me sentido explorar o lado mais yin de mim mesma.

Tens algum livro, ou outro recurso, que queiras recomendar às aventureiras que andam a seguir os seus sonhos ou se preparam para isso?

Recomendar só um é injusto para todos os outros, mas o Monge que vendeu o seu Ferrari é de uma simplicidade e objectividade que fazem a pena ler e reler.

Em criança, ser livre era uma das coisas com as quais sonhavas. Como defines agora a palavra liberdade? Sentes que ao longo do tempo este conceito para ti se foi alterando?

Liberdade de ser e sentir. Em criança, passava horas na rua a brincar, a correr, a jogar futebol. Lembro-me dessa sensação de liberdade assim, liberdade era ter espaço, correr, sorrir. Hoje em dia, continuo a sentir essa liberdade quando movimento o meu corpo, quando o animo com vida. Talvez esse conceito se tenha apurado.

Se te pedisse para fechares os olhos e pensares em ti daqui a 10 anos, o que vês?

Vejo-me a viver definitivamente em Portugal, mas a viajar mais vezes por ano e a explorar culturas e outros mundos neste mundo. Sozinha, com o meu marido e com os miúdos. Vejo-me a fazer exactamente o que faço agora e com o meu estúdio aberto.

Fotografia de capa: Mariana Sabido

Eu sou a Cristiana

Uma simples rapariga que abraçou o seu negócio próprio por paixão e o fez crescer. O meu negócio cresceu a trabalhar com marcas que queriam colocar algo bom no mundo, com sonhadoras e sonhadores que arriscaram para verem realizados os seus sonhos. É esta a minha missão! Infinitas são as minhas paixões e graças a elas tornei-me Designer, professora de Yoga, entusiasta pela Fotografia entre muitas outras coisas. Gosto da paz da natureza, de exercício físico, de decoração e das coisas mais simples que existem neste mundo.

Ahh... e tenho um gato rebelde chamado Matias.

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