NEW LIFE | Mafalda Rodrigues

Date
Fev, 01, 2020

Scroll down for English

Sempre invejei os determinados mas cada caminho é único e apesar de me ter sentido muito sozinha muito tempo já ninguém me pode tirar o que fiz até aqui.

• Quem é a Mafalda?
Esta é aquela pergunta cheia de rasteiras que nos desafia a entrar em nós próprios: Eu tenho vários papéis na minha vida – sou mãe, mulher, filha, irmã, cunhada, neta, amiga, fotógrafa e acho que uma eterna criança. Adoro praia e por isso vivo perto dela, o mar tem qualquer coisa que me atrai e costumo dizer que se tenho de apanhar trânsito de manhã que seja na estrada mais bonita.

• Em criança, quais eram os teus sonhos para a vida adulta?
Em criança lembro-me de querer ser veterinária ou professora, sempre achei que ter 3 filhos era a conta certa porque era também a minha realidade e queria ter cães. Deixei para trás o ser veterinária mas tive uma cadela 10 anos, tenho 2 filhos e vou ficar por aí, nada mau!

• Neste momento a tua vida profissional é a fotografia, mas não foi por aqui que começaste o teu percurso académico. Que curso escolheste e quais as tuas motivações na altura para fazeres essa escolha?
Tive uma vida secundária meio atribulada, a mudar de escolas sem grande motivo e acabei por me perder um bocadinho. Na altura fiz um teste psicotécnico que era muito específico nos resultados e deu-me professora de 1.º ciclo ou assistente social. Bem, e não hesitei muito, entrei logo em Educação e fiz a licenciatura em Educação Básica. Infelizmente percebi logo nos estágios que não tinha perfil para ser professora.

Ao longo da licenciatura fui fazendo por curiosidade cursos de fotografia digital e acabei por me encantar com blogs que começaram a existir de fotografia de família. No meio disso trabalhei em restauração e ainda dei aulas de inglês em escolas para não ficar eternamente dependente e hoje tenho muito orgulho no meu percurso.

Sempre invejei os determinados mas cada caminho é único e apesar de me ter sentido muito sozinha muito tempo já ninguém me pode tirar o que fiz até aqui. Acabei por ajudar algumas fotógrafas para me inteirar da realidade que é fotografar um casamento, tem as suas particularidades, e a partir daí tudo fluiu. Se foi fácil? Não. Investir em material fotográfico é muito dispendioso, e nunca estagna, manutenção, avarias, tive muita sorte, muitas ajudas. Pessoas-chave que acreditaram. O boca a boca continua a ser a melhor ferramenta de publicidade (agora a par com o Instagram) e por isso é uma rede que vai alargando aos poucos. Não sei bem explicar o que me trouxe até aqui hoje, aliás ando exactamente nesta fase da minha vida à procura de algumas respostas a questões que nunca pus. Isto tudo para concluir que não acredito em coisas perfeitas, acredito em coisas que na balança se equilibram.

Ser fotógrafa não é só coisas boas, mas também não é só coisas más e isso tem-me chegado. Foi difícil (ingénuo) aceitar que não ia agradar toda a gente mas também me permitiu viver os primeiros meses dos meus filhos com muita intensidade e presença, conhecer muitos sítios diferentes e pessoas.
Fotografia de Grão a Grão

• Quando te afastaste definitivamente da tua área de formação para dar oportunidade à fotografia, como foi a reacção da tua família?
A fotografia sempre foi vista como um hobby e claro que acho que isso assusta um bocadinho. Mas não tenho pais conservadores por isso fui sempre encorajada.

• Sentiste dúvida e medo quando começaste a tentar construir a tua carreira como fotógrafa? Como vês o papel destes sentimentos no teu percurso?
Claro que sim. Muitas vezes quis desistir. Muitos invernos em que o dinheiro acaba rápido, ver outros a ter o dobro do meu trabalho ou aparentemente a ter vidas muitos mais giras que a minha, o questionar se era mesmo por aqui. Acho que neste caso o questionar é sempre positivo, houve sempre mais qualquer coisa que pude mudar, melhorar, consolidar.

• O tipo de fotografia em que te foste especializando está relacionado com a família, casamentos, no fundo gostas de retratar os laços, relações e emoções entre pessoas. Teres a possibilidade de eternizar e presenciar tantos momentos especiais ensinou-te algo?
Sem dúvida. Sou um poço de emoções. Sempre senti muita responsabilidade neste trabalho, a entrada de um casamento, seja ele onde for, mexe tanto com o estômago dos noivos como com o meu, não posso falhar.

Quando me casei então foi um salto ainda maior que senti. Perceber o trabalho que dá cada pormenor na organização de um casamento, recordar cada pessoa da nossa vida que se ali está é porque é importante. Aquele vai ser provavelmente o único dia na tua vida em que reúnes toda a gente de quem gostas. Olhas à volta e só vês as tuas pessoas. O que me ensinou? A não querer apressar nada. Quando somos pequenos queremos crescer rápido porque não podemos fazer tudo o que queremos, quando finalmente somos grandes, dávamos tudo para ser pequenos e livres outra vez. A fotografia parece que congela aquele tempo. Já vivi muitos momentos, já me ri e chorei, dancei, desdobrei-me, corri, deitei no chão.

• Apesar de todos os momentos de contacto com as pessoas durante as sessões, existem muitas horas de trabalho só teu. Sentes que há uma grande parte do teu trabalho que é solitário?
Muito! Demasiado até. Acaba por nos aproximar de outras pessoas que fazem o mesmo que nós, mas é sempre difícil conciliar agendas e é dispendioso também estar sempre fora de casa. É a parte mais difícil.

• Para ti, qual é a melhor coisa em gerires o teu negócio?
Sou tão má gestora que me custa arranjar uma resposta sincera a esta pergunta. Mas acho que o gerir a minha agenda sem pressões exteriores.

• Sentes que já encontraste ou identificaste o teu propósito de vida?
Não me imagino a fazer outra coisa se não fotografar. Acho que é um trabalho bonito e nobre. Que me pesa nas costas e incha as pernas mas que me enche o coração. E apesar de estar numa fase particularmente difícil exactamente sobre as questões da vida, sei que profissionalmente estou no sítio certo.

• Tens algum livro, ou outro recurso, que queiras recomendar às meninas empreendedoras que andam a seguir os seus sonhos ou se preparam para isso?
Não li nenhum livro antes de me aventurar. Não pensei assim tanto. Tem muito a ver com a fase da minha vida em que tomei esta decisão. Não tinha nada a perder, não tinha ninguém dependente de mim. Falei com pessoas que faziam o que eu queria fazer. Absorvi e fiz. Apareci! Foi natural. Conheço quem tenha começado por fazer metade-metade e depois tenha largado o trabalho fixo numa fase mais confortável.

• Como defines a palavra liberdade?
Liberdade é necessária para sermos quem somos. Perigosa para quem não sabe como a usar.

• Se te pedisse para fechares os olhos e pensares em ti daqui a 10 anos, o que vês?
Não tenho uma bola de cristal mas gostava de ser uma mãe serena a ver os seus filhos crescerem.

English Version

“I have always envied those determined people but each path is unique and although I have felt very alone for a long time, no one can take away from me what I have done so far.”

Who is Mafalda?
This is that creepy question that challenges us to enter ourselves: I have several roles in my life – I am a mother, woman, daughter, sister, sister-in-law, granddaughter, friend, photographer and I think I am an eternal child. I love the beach and for that reason I live close to it, the sea has something that attracts me and I usually say that if I have to catch traffic in the morning it is on the most beautiful road.

As a child, what were your dreams for adulthood?
As a child I remember wanting to be a veterinarian or teacher, I always thought that having 3 children was the right account because it was also my reality and I wanted to have dogs. I left the veterinarian behind but I had a dog 10 years old, I have 2 children and I will stay there, not bad!

Right now your professional life is photography, but it was not here that you started your academic career. What course did you choose and what were your motivations at the time to make that choice?
I had a somewhat troubled high school life, changing schools for no reason and ended up losing myself a little. At the time, I took a psychometric test that was very specific in the results and gave me a 1st cycle teacher or social worker. Well, and I didn’t hesitate too much, I immediately went into Education and did my degree in Basic Education. Unfortunately, I soon realized in the internships that I didn’t have the profile to be a teacher.

Throughout my degree, I started taking digital photography courses out of curiosity and ended up being enchanted with blogs that started to exist in family photography. In the midst of that I worked in restoration and I also gave English classes in schools to not be forever dependent and today I am very proud of my journey.

I have always envied those determined but each path is unique and although I have felt very alone for a long time, no one can take away from me what I have done so far. I ended up helping some photographers to get to know the reality of photographing a wedding, it has its peculiarities, and from there everything flowed. If it was easy? No. Investing in photographic material is very expensive, and it never stagnates, maintenance, damage, I was very lucky, a lot of help. Key people who believed. Word of mouth remains the best advertising tool (now on par with Instagram) and so it is a network that is gradually expanding. I am not sure how to explain what brought me here today, in fact I am at this very stage of my life looking for some answers to questions I never asked.

All this to conclude that I do not believe in perfect things, I believe in things that balance the balance. Being a photographer is not only good things, but it is also not just bad things and that has come to me. It was difficult (naive) to accept that it was not going to please everyone, but it also allowed me to live my children’s first months with a lot of intensity and presence, to know many different places and people.

When you definitely left your training area to give photography a chance, how was your family’s reaction?
Photography has always been seen as a hobby and of course I think it scares a little bit. But I don’t have conservative parents, so I was always encouraged.

Did you feel doubt and fear when you started trying to build your career as a photographer? How do you see the role of these feelings in your journey?
Of course yes. I often wanted to give up. Many winters in which money runs out quickly, seeing others having twice as much work or apparently having lives that are much nicer than mine, wondering if it was really this way. I think that in this case, questioning is always positive, there was always more that I could change, improve, consolidate.

The type of photography you specialize in is related to family, weddings, deep down you like to portray the bonds, relationships and emotions between people. Has the possibility of eternalizing and witnessing so many special moments taught you anything?
No doubt. I am a well of emotions. I have always felt a lot of responsibility in this work, the entrance to a wedding, wherever it goes, it affects both the grooms’ stomach and mine, I cannot fail.

When I got married then it was an even bigger leap that I felt. To understand the work that goes into every detail in the organization of a wedding, to remember every person in our life that is there is because it is important. That will probably be the only day in your life when you get everyone you care about together. You look around and you only see your people. What did it teach me? Not wanting to rush anything. When we are small we want to grow fast because we cannot do everything we want, when we are finally big, we gave everything to be small and free again. The photograph seems to freeze that time. I have lived many moments, I laughed and cried, I danced, I unfolded, I ran, I lay on the floor.

Despite all the moments of contact with people during the sessions, there are many hours of work only yours. Do you feel that there is a large part of your work that is lonely?
Much! Too much. It ends up bringing us closer to other people who do the same as us, but it is always difficult to reconcile schedules and it is also expensive to always be away from home. It is the most difficult part.

For you, what is the best thing about running your business?
I am such a bad manager that it is hard for me to get a sincere answer to this question. But I think that managing my schedule without outside pressure.

Do you feel that you have already found or identified your life purpose?
I can’t imagine doing anything else if I don’t photograph. I think it’s a beautiful and noble job. That weighs on my back and swells my legs but fills my heart. And although I am in a particularly difficult phase exactly on the issues of life, I know that professionally I am in the right place.

Do you have a book, or other resource, that you want to recommend to enterprising girls who are pursuing (or preparing to chase) their dreams?
I didn’t read any books before I ventured out. I didn’t think that much. It has a lot to do with the stage in my life when I made this decision. I had nothing to lose, I had no one dependent on me. I talked to people who did what I wanted to do. I absorbed it and did it. I showed up! It was natural. I know someone who started by doing half-half and then left fixed work at a more comfortable stage.

How do you define the word freedom?
Freedom is necessary to be who we are. Dangerous for those who don’t know how to use it.

If I asked you to close your eyes and think of yourself 10 years from now, what do you see?
I don’t have a crystal ball, but I would like to be a calm mother watching her children grow up.

1 Comment

  1. Responder

    AffiliateLabz

    Fevereiro 16, 2020

    Great content! Super high-quality! Keep it up! 🙂

Leave a comment

Related Posts