NEW LIFE | Ângela Nunes

Date
Jun, 14, 2020

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Fotografia de Mariana Sabido
Nunca mais voltei, mas perdi o meu bebé e nunca me esquecerei disso. Uma vez mais o corpo agia por mim, numa tentativa de me mostrar o caminho. E mostrou. Segui a minha viagem e fui ser feliz noutros lugares.

• Quem é a Ângela?
Sou uma miúda mulher e cresci a amar o movimento. Desde pequena que sonhava em ser professora de Educação Física. Só ainda não sabia explicar que o que eu queria, era ensinar o movimento através das palavras. Tornei-me então professora de Educação Física e com o passar dos anos encontrei no Pilates e no Yoga novas formas de me expressar, de me reinventar, de me conhecer melhor.

Tenho 36 anos, dois filhos meninos, sou casada com o homem da minha vida. Acredito no amor à primeira vista. Acredito no amor próprio, acredito no amor. Esta sou eu. Gosto de palavras e de abraços. Gosto muito de sorrir e também sou boa a explodir. Aprendo todos os dias a sorrir mais e a explodir menos. Sou feita de emoções fortes, de convicções profundas e de dúvidas superficiais. Adoro árvores, verde, nuvens e cinzento. Ler e escrever, escrever e ler. Tenho duas palavras preferidas: agora e quietude. Quietude, agora.

• Em criança, quais eram os teus sonhos para a vida adulta?
Sonhava em ser jornalista, professora de Português, professora de Educação Física e futebolista. Adorava ser livre.

• Neste momento és professora de Yoga e Pilates, mas para que te possamos conhecer melhor fala-nos um pouco do teu percurso até chegares aqui.
Em 2003 entrei em Educação Física como sempre desejei. Em 2007 comecei a trabalhar num ginásio ainda antes de terminar o curso. Cresci na empresa à medida que fui fazendo o curso superior. Acabei o curso e comecei a sentir que o meu lugar não era ali. Paralelamente a esse sentimento, tirei a formação em Pilates em 2007 e durante muitos anos, lecionava Educação Física, dava aulas de Pilates e fazia toda a gestão do ginásio. Tentei fazer um mestrado ao mesmo tempo, e a partir daí entrei num universo menos bom. Trabalhava durante horas e horas e deixei de estar apaixonada pelo que fazia e sobretudo por mim mesma. Pessoalmente, sentia que não era amada como eu amava, não me sentia feliz. Desenvolvi um problema de pele, um eczema que tomou conta de grande parte do meu corpo. Durante meses tentei tratamentos que não resultavam e mais tarde, descobri na psicoterapia a minha quase cura. Digo isto porque a cura começa em nós, bem cá dentro, em primeiro lugar. Renasci aí, uma primeira vez. Perceber que questões emocionais se haviam revelado no meu corpo físico, mudou toda a minha perspetiva de vida.

Comecei a praticar Yoga e apaixonei-me ainda mais pelo movimento. Em 2011 entrei para a minha formação em Yoga. Em 2013 engravidei sem querer e voltei a renascer. Soube que era um ponto de viragem, mas não sabia até onde isso me levaria. Foram meses de muitas certezas e de muitos questionamentos. Quando voltei ao trabalho, após todo o período de licença de maternidade, fui confrontada com um novo mundo. Eu já não era a mesma e a empresa também não. Percebi no dia em que voltei ao trabalho que não fazia sentido estar ali. Aquele já não era o meu lugar. Coloquei a hipótese de engravidar de novo, numa tentativa um bocadinho inconsciente de “fugir” de um lugar onde eu já não queria estar mas que não tinha coragem para deixar. A verdade é que engravidei naquele primeiro mês de regresso ao trabalho pós licença de maternidade. Esse regresso ao trabalho foi muito difícil para mim, não estava preparada para deixar o meu bebé e bem cá dentro sabia que não queria voltar. Foram semanas de muito nervosismo e stress e ainda sem saber que já estava grávida, acordei numa sexta-feira a meio da noite com dores fortes e incapacitantes no baixo ventre e a perder muito sangue. Não percebi logo que estava a abortar. Liguei para a saude 24 e só aí me foi dito o que poderia estar a acontecer, tendo em conta o que descrevi à enfermeira via telefone. Eu não queria acreditar. Chorei muito. Contorci-me. Muito.
Antes de sair de casa a caminho do hospital, percebendo já o que poderia estar a acontecer, disse ao meu marido que não voltaria aquele trabalho.

Nunca mais voltei, mas perdi o meu bebé e nunca me esquecerei disso. Uma vez mais o corpo agia por mim, numa tentativa de me mostrar o caminho. E mostrou. Da pior forma possível, mas mostrou. Durante muito tempo senti-me culpada pelo que aconteceu. Senti-me responsável por ter perdido o meu filho que ainda não sabia sequer que já existia. Segui a minha viagem, deixei o ginásio e fui ser feliz noutros lugares. Comecei a dar aulas em ginásios, de Yoga e Pilates, com menos estabilidade financeira mas com mais amor.

Quando tudo estava bem como tinha de estar e já depois do nascimento do meu segundo filho, o meu marido foi trabalhar para fora. Vivi um ano sozinha com os meus dois filhos, numa espécie de bolha entre a saudade e o cansaço, o amor e a raiva. Peguei nas malas e juntámo-nos ao meu marido em Inglaterra. Deixei de dar aulas presenciais. Comecei a dar aulas online e é isso que faço hoje.

• A perda que sofreste foi impulsionadora da decisão de abandonares o emprego que tinhas na altura. O que consideras que te prendeu, talvez ainda durante algum tempo, a esse emprego que já não te fazia sentido e até te estava a fazer mal física e psicologicamente?
Prendia-me a estabilidade financeira sobretudo. Eu adorava o trabalho que fazia, adorava as pessoas com quem trabalhava e as pessoas que me rodeavam, mas comecei a sentir-me muito cansada porque trabalhava imensas horas e tinhas muitas responsabilidades. Mas financeiramente estava presa aquele número e ao que isso representava.

• Em termos familiares, quando tomaste a decisão de não voltar aquele trabalho, sentiste que alguém te tentou fazer ver as coisas de outra forma e/ou mudar de ideias, pela estabilidade que aquele emprego representava ou por qualquer outro motivo?
Não. O meu marido, quando saí de casa nesse dia, durante a noite e antes de fechar a porta disse-lhe que se estivesse a abortar nunca mais voltaria lá, só me respondeu “e não voltas mesmo”. Ele ficou com o meu filho mais velho, com 6 meses e eu segui para o hospital com a minha irmã, literalmente lavada em lágrimas e em sangue.

• Qual o maior desafio que tens sentido desde que começaste a trabalhar de forma mais autónoma?
Essa instabilidade financeira. Mas ganhei uma relação mais saudável com o dinheiro, consumo de forma mais consciente e mais alinhada com o que realmente preciso.

• Neste momento vives em Inglaterra e dás exclusivamente aulas online. Sentes falta de ter as pessoas perto de ti durante a pratica?
Neste momento estou em Portugal, regressei há 2 meses, por cauda do vírus. Quando vivia em Inglaterra, sentia essa falta sim. Mas o que fiz foi planear eventos, então sempre que vinha a Portugal, nas férias escolares dos miúdos, dava workshops e aulas presenciais. É o que pretendo continuar a fazer! Manter o online, porque é a minha base e poderei fazê-lo a partir de qualquer lado do mundo, e o presencial, sempre que regressar a Portugal.

• Hoje em dia sentes equilíbrio e felicidade no que fazes, ou sentes que nos próximos tempos terás que alterar algo que vais sentindo não estar bem ou completo?
Sinto total equilíbrio e felicidade. Nasci para fazer o que faço. Não tenho dúvida de que o meu caminho é este, partilhar experiências, sensações, pensamentos e orientar as pessoas na sua prática física: seja no Yoga, no Pilates ou na Educação Física.

• Que competência ou aprendizagem gostarias de juntar à tua caixa de ferramentas?
Neste momento estou a fazer formações em áreas como o sagrado feminino, a meditação e Vedanta. São áreas que quero explorar mais, porque sempre fui muito yang e faz-me sentido explorar o lado mais yin de mim mesma.

• Tens algum livro, ou outro recurso, que queiras recomendar às aventureiras que andam a seguir os seus sonhos ou se preparam para isso?
Recomendar só um é injusto para todos os outros 🙂 Mas o Monge que vendeu o seu Ferrari é de uma simplicidade e objectividade que fazem a pena ler e reler.

• Em criança, ser livre era uma das coisas com as quais sonhavas. Como defines agora a palavra liberdade? Sentes que ao longo do tempo este conceito para ti se foi alterando?
Liberdade de ser e sentir. Em criança, passava horas na rua a brincar, a correr, a jogar futebol. Lembro-me dessa sensação de liberdade assim, liberdade era ter espaço, correr, sorrir. Hoje em dia, continuo a sentir essa liberdade quando movimento o meu corpo, quando o animo com vida. Talvez esse conceito se tenha apurado.

• Se te pedisse para fechares os olhos e pensares em ti daqui a 10 anos, o que vês?
Vejo-me a viver definitivamente em Portugal, mas a viajar mais vezes por ano e a explorar culturas e outros mundos neste mundo. Sozinha, com o meu marido e com os miúdos. Vejo-me a fazer exactamente o que faço agora e com o meu estúdio aberto.

English Version

“I never came back, but I lost my baby and I will never forget it. Once again the body acted for me, in an attempt to show me the way. And it showed. I followed my journey and went to be happy elsewhere.”

Photo by Mariana Sabido

Who is Ângela?
I’m a young woman and I grew up loving the movement. Since I was a child I dreamed of becoming a Physical Education teacher. I just didn’t know how to explain that what I wanted was to teach movement through words. I became a Physical Education teacher and over the years I found in Pilates and Yoga new ways to express myself, to reinvent myself, to get to know myself better.

I’m 36 years old, two children, I am married to the man of my life. I believe in love at first sight. I believe in self-love, I believe in love. This is me. I like words and hugs. I love to smile and I’m also good at exploding. Every day I learn to smile more and explode less. I am made up of strong emotions, deep convictions and superficial doubts. I love trees, green, clouds and gray. Read and write, write and read. I have two favorite words: now and stillness. Quiet, now.

As a child, what were your dreams for adulthood?
I dreamed of being a journalist, Portuguese teacher, Physical Education teacher and footballer. I loved being free.

Right now you are a Yoga and Pilates teacher, but in order for us to get to know you better tell us a little about your journey until you got here.
In 2003 I entered in Physical Education as I always wished. In 2007 I started working in a gym even before I finished my course. I grew up in the company as I went to college. I finished the course and started to feel that my place was not there. In parallel to this feeling, I took the Pilates training in 2007 and for many years, I taught Physical Education, gave Pilates classes and did all the gym management. I tried to do a master’s degree at the same time, and from there I entered in a less good universe. I worked for hours and hours and I stopped being in love with what I did and especially with myself. Personally, I felt that I was not loved as I loved, I was not happy. I developed a skin problem, an eczema that took over much of my body. For months I tried treatments that did not work and later, I discovered in psychotherapy my almost cure. I say this because healing begins in us, deep inside in the first place. I was reborn there, a first time. Realizing that emotional issues had revealed themselves in my physical body, changed my whole perspective on life.

I started practicing Yoga and fell in love with the movement even more. In 2011 I joined my Yoga training. In 2013 I accidentally got pregnant and I reborn again. I knew it was a turning point, but I didn’t know how far it would take me. These were months of many certainties and many questions. When I returned to work, after the entire period of maternity leave, I was faced with a new world. I was no longer the same and neither was the company. I realized the day I went back to work that it didn’t make sense to be there. That was no longer my place. I put the possibility of getting pregnant again, in an attempt a little unconscious to “run away” from a place where I no longer wanted to be but that I did not have the courage to leave. The truth is that I got pregnant that first month back from work after maternity leave. That return to work was very difficult for me, I was not prepared to leave my baby and inside I knew I didn’t want to go back. There were weeks of nervousness and stress and even without knowing that I was already pregnant, I woke up on a Friday in the middle of the night with severe and disabling pains in my lower abdomen and losing a lot of blood. I didn’t realize right away that I was having an abortion. I called the emergency number and only then I was told what could be happening, taking into account what I described to the nurse via phone. I didn’t want to believe it. I cried a lot. I squirmed. Very. Before leaving home on the way to the hospital, realizing what might be happening, I told my husband that I would not be back to work.

I never came back, but I lost my baby and I will never forget it. Once again the body acted for me, in an attempt to show me the way. And it showed. In the worst possible way, but it showed. For a long time I felt guilty about what happened. I felt responsible for having lost my son who I did not even know he already existed. I followed my journey, left the gym and went to be happy elsewhere. I started to teach classes in gyms, Yoga and Pilates, with less financial stability but with more love.

When everything was fine as it had to be and already after the birth of my second child, my husband went to work outside. I lived a year alone with my two children, in a kind of bubble between longing and tiredness, love and anger. I took the bags and we joined my husband in England. I stopped teaching in person. I started teaching online and that’s what I do today.

The loss that you suffered took you to the decision to leave the job you had at the time. What do you think held you, perhaps even for a while, to that job that no longer made sense to you and was even hurting you physically and psychologically?
Above all, I had financial stability. I loved the work I did, I loved the people I worked with and the people around me, but I started to feel very tired because I worked a lot of hours and had many responsibilities. The relationship with the boss stopped being so healthy and as I was the bridge with the rest of the team, it started to become very exhausting.

In family terms, when you took the decision not to return to that job, did you feel that someone tried to make you see things differently and / or change your mind, because of the stability that job represented or for any other reason?
No. My husband, when I left the house that day, during the night and before closing the door I told him that if I was having an abortion I would never go back there, he just answered “and you won’t be back”. He stayed with my oldest son, 6 months old and I went to the hospital with my sister, literally washed in tears and in blood.

What is the biggest challenge you have felt since you started working more autonomously?
This financial instability. But I gained a healthier relationship with money, consuming more consciously and more aligned with what I really need.

Right now you live in England and teach exclusively online. Do you miss having people close to you during practice?
Right now I’m in Portugal, I came back 2 months ago, due to the virus. When I lived in England, I did miss that. But what I did was to plan events, so whenever I came to Portugal, on the kids’ school holidays, I gave workshops and face-to-face classes. That’s what I intend to continue doing! Keep online, because it is my base and I will be able to do it from anywhere in the world, and in person, whenever I return to Portugal.

Nowadays do you feel balance and happiness in what you do, or do you feel that in the near future you will have to change something that you are feeling not being well or complete?
I feel total balance and happiness. I was born to do what I do. I have no doubt that my path is this, to share experiences, sensations, thoughts and guide people in their physical practice: be it Yoga, Pilates or Physical Education.

What competence or learning would you like to add to your toolbox?
I am currently doing training in areas such as the feminine sacred, meditation and Vedanta. These are areas that I want to explore more, because I have always been very yang and it makes sense to explore the more yin side of myself.

Do you have any books or other resources you would like to recommend to entrepreneurial girls?
To recommend only one is unfair to everyone else. But the Monk who sold his Ferrari is of a simplicity and objectivity that make it worth reading and rereading.

As a child, being free was one of the things you dreamed of. How do you define the word freedom now? Do you feel that over time this concept has changed for you?
Freedom to be and feel. As a child, I spent hours on the street playing, running, playing football. I remember that feeling of freedom like that, freedom was having space, running, smiling. Nowadays, I still feel that freedom when I move my body, when I cheer it up with life. Perhaps this concept has been refined.

If I asked you to close your eyes and think of yourself 10 years from now, what do you see?
I see myself definitely living in Portugal, but traveling more times a year and exploring cultures and other worlds in this world. Alone, with my husband and the kids. I see myself doing exactly what I do now and with my studio open.

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